Jornada
Medos e a hemodiálise
Eu tinha pavor da máquina e medo da morte!
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Pouco tempo depois do diagnóstico, os exames continuaram piorando.
Era como se tudo estivesse acontecendo rápido demais. Eu ainda tentava entender que meus rins não funcionavam mais quando, em uma noite, passei muito mal e precisei ser levada às pressas para o hospital.
Eu estava entrando em um quadro de uremia.
O que é uremia?
A uremia acontece quando os rins já não conseguem eliminar adequadamente as substâncias que deveriam ser retiradas do sangue. Esses resíduos começam a se acumular no organismo e podem provocar sintomas importantes, como náuseas, vômitos, fraqueza intensa, sonolência, confusão mental e, nos casos mais graves, alterações neurológicas e outras complicações que colocam a vida em risco.
E naquela noite, meu quadro era grave.
Eu já estava confusa, vomitava muito e fui parar na UTI.
Tive convulsões. Minha pressão estava instável. Meu corpo estava extremamente fraco e tudo parecia fugir do nosso controle.
Foi uma noite assustadora.
Em determinado momento, a situação ficou tão crítica que minha família foi chamada e chegou a receber a orientação de que talvez fosse a hora de se despedir.
As minhas chances pareciam pequenas.
Para mim, algumas lembranças daquela noite ficaram embaralhadas. Para minha família, porém, foram horas que jamais seriam esquecidas.
Foi ali, dentro da UTI, que comecei a fazer hemodiálise.
Aquela máquina que eu ainda nem compreendia direito passou a fazer aquilo que os meus rins já não conseguiam fazer sozinhos: ajudar a retirar do meu sangue aquilo que meu organismo não conseguia mais eliminar.
Depois da UTI, continuei as sessões durante a internação. Alguns dias mais tarde, finalmente recebi alta.
Mas voltar para casa não significava voltar para a vida que eu tinha antes.
A partir daquele momento, eu precisaria retornar ao hospital três vezes por semana para fazer hemodiálise.
E eu tinha pavor daquela máquina.
Talvez porque ela materializasse tudo aquilo que eu ainda não conseguia aceitar. Sentar naquela cadeira e ser conectada à máquina era uma lembrança constante de que meus rins não estavam funcionando e de que eu dependia daquele tratamento para continuar vivendo.
Com o tempo, porém, comecei a enxergá-la de outra maneira.
Aquilo que inicialmente representava medo passou a representar uma oportunidade.
Percebi que existem doenças para as quais não há uma terapia capaz de substituir, ainda que parcialmente, a função que um órgão perdeu.
Eu tinha uma opção.
A máquina que tanto me assustava também era a máquina que estava me mantendo viva.
Isso não significa que o medo desapareceu.
O medo da morte era real.
Eu estava fraca. Tinha enfrentado convulsões, parada, pressão instável e uma sonolência e um cansaço que pareciam nunca passar.
Tudo parecia um grande pesadelo.
E, no meio de tudo isso, ainda precisávamos aprender uma nova vida.
Durante aquela internação, começaram a nos explicar sobre a necessidade de fazer uma cirurgia para a criação da fístula arteriovenosa, que seria utilizada como acesso para a hemodiálise. Ao mesmo tempo, vieram as orientações sobre as sessões, alimentação, cuidados com a saúde e até sobre a importância do equilíbrio emocional.
Tudo de uma vez.
Eram tantas informações.
Tantas decisões.
Tantas perguntas.
E quase nenhuma delas parecia ter uma resposta simples.
É importante lembrar que estamos falando de aproximadamente vinte anos atrás. Hoje temos acesso imediato a informações, vídeos, comunidades de pacientes, conteúdos médicos e até inteligência artificial para ajudar a entender termos que recebemos em um exame ou ouvimos durante uma consulta.
Naquela época era muito diferente.
Eu tentava encontrar respostas onde conseguia.
Como fazia o curso de enfermagem, cheguei a procurar nos meus próprios materiais de estudo para entender melhor aquilo que estava acontecendo comigo.
Só que, em vez de encontrar conforto, algumas respostas me assustavam ainda mais.
Lembro de pegar o material de Clínica Médica e procurar tudo o que havia sobre a doença renal. Eu lia cada linha tentando compreender o que poderia acontecer comigo.
Até chegar ao final.
Havia uma palavra que ficou gravada na minha memória:
“Complicação: óbito.”
Imagine ler aquilo aos 21 anos.
Não era mais uma matéria de prova.
Não era o caso clínico de algum paciente.
Era sobre mim.
Depois de alguns dias, finalmente saí do hospital.
E havia uma ironia dolorosa naquele momento: estávamos justamente comemorando nosso primeiro ano de casamento.
Um ano antes, estávamos começando nossa vida juntos, fazendo planos, organizando nossa casa e sonhando com tudo aquilo que ainda construiríamos.
Agora, tudo tinha mudado.
Nossa casa, que havíamos montado com tanto carinho, precisou ser entregue. Nossas coisas foram desmontadas e distribuídas entre casas de familiares para serem guardadas.
Aquela casa representava o começo da nossa independência, da nossa vida de casados.
E, de repente, tivemos que abrir mão dela.
Eu e meu esposo voltamos para a casa dos meus pais.
Não porque aquele fosse o nosso plano.
Mas porque eu já não conseguia ficar sozinha.
Ele precisava continuar trabalhando, e eu precisava que alguém estivesse comigo, me ajudasse e cuidasse de mim.
A doença não mudou apenas a minha rotina.
Mudou a rotina de uma família inteira.
Começou então uma verdadeira operação para que eu pudesse fazer hemodiálise três vezes por semana.
Quem vai levar?
Quem consegue buscar?
Quem pode ficar comigo hoje?
Quem consegue mudar o horário?
De repente, compromissos, trabalhos e agendas precisavam se adaptar à minha nova realidade.
Eu havia perdido minha rotina, minha casa, parte da minha independência e, naquele momento, até a sensação de controle sobre o meu próprio corpo.
Aos 21 anos, quando imaginava estar começando a construir minha vida, precisei aprender algo completamente diferente:
aprender a lutar por ela.